3 de dezembro de 2012

Educação até onde vamos?




Sábado preciso ir até o centro da cidade onde moro para resolver algumas coisas. Entro no ônibus, ele está cheio, escolho um lugar pra ficar, e espero sem a menor paciência ele seguir viagem, detalhe: o trânsito, ás dez da manhã já está absurdo. Em pé, e com pressa, penso que é inútil me estressar. Não há o que fazer a não ser esperar.   

Sem a menor intenção, meu ouvido gruda na conversa alheia (isso foi totalmente involuntário).

— Então, eu tive que me afastar... Lastimável, pois faltavam apenas dois anos para me aposentar.
—Com a saúde não se brinca, é realmente uma pena...

Uma ambulância passa rapidamente tirando minha concentração da conversa. Pelo pouco que ouvir do papo, deu para sacar que os dois eram professores do ensino médio: ela professora de matemática, e ele, até então, eu não sabia.

—Bom, desço no próximo ponto. Boa sorte, ela disse se despedindo.
Eu me sento em seu lugar, quieta e ainda sonolenta esperando  o trânsito desafogar, uma vez que estou sentada, isso se torna menos maçante.
—Tudo parado né? O professor puxa assunto.
—Pois é...
—Deve ter acontecido algum acidente, viu aquela ambulância?
—Vi sim. Deve mesmo... O pior que essa é avenida principal, não temos outra alternativa. Digo olhando para a fila de carros á nossa frente.
—Lá atrás, acho que você não deva se lembrar, pela idade. O prefeito da cidade cogitou fazer duas avenidas, mas como o governo só pensar em ganhar dinheiro e não está nem pouco preocupado com a sociedade, a ideia só passou de ideia. Ele sorriu com simpatia.
—É mesmo? Seria ótimo se fosse concretizado.
—Com certeza...

O professor aparentava ter seus cinquentas anos, dissertou muito bem como era a política naquela época (nada muito diferente do que agora), o que agregou muito ao meu conhecimento.

Entramos em outro tema, também ligado ao governo: educação.
—Não sei, se você reparou, mas eu e minha amiga, aquela que desceu?
—Sei... Balanço a cabeça.
—Somos professores do ensino médio. Ela está afastada...
—É mesmo? Faço desentendida.
—Não porque não quer trabalhar, e sim, por conta do estresse. Para seu bem, ela se afastou.
—Entendo.
—E, o senhor é professor do quê?
—Matemática, ciência, biologia, geografia e história. Ele disse como se fosse à coisa mais natural do mundo.
Uau! Penso.
—Trabalhei muito tempo como bancário, porém meu coração gritava por essa profissão, naquele tempo era bom... Ele disse sorriu com a lembrança. — Eu tinha prazer em dar aula, acrescentou.
—As coisas mudaram muito hoje em dia.

O ensino, os professores e principalmente os alunos mudaram, eu faço uma nota mental.

—E como! Eu chego para fazer o que faço de melhor na vida, e fico com coração entristecido quando entro na sala de aula. É cadeira voando pelos ares, folhas de papel amassadas pelo chão, celular no volume alto tocando funk, e as meninas? Dançando até o chão.
—Meu Deus! Não imaginava que tinha chegado a esse ponto.
—Eu já fui agredido...
—Você está brincando?
—Fui. O garoto ficou bravo porque comecei a escrever na lousa a matéria. Ele me deu dois socos na barriga. Na hora não sentir meu corpo, fiquei parado sem reação. O professor de Física percebeu a movimentação e foi até a minha sala e segurou o garoto.
Coloco a mão na boca assustada
—O negócio ficou complicado para nós, ele rir da minha cara de assustada.
—O senhor lecionar em quantas escolas?
—Duas. Uma pública e a outra particular.
—Na particular, as coisas são diferentes, não são?
—Com certeza! Ganho o dia quando tenho que ir pra lá. Olha, eu ainda não perdi o controle porque penso que falta pouco para me aposentar. Perder a cabeça agora é um risco bem alto. Então, todas às vezes, que entro na sala e vejo as cenas que lhe falei, penso comigo mesmo: o problema não sou eu! Eles não querem aprender!
—Tem que pensar assim mesmo, estimulei.
—Você acredita que eles me pedem para não dar aula?
—Não duvido demais nada, depois disso...
— É por isso que ninguém quer ser professor no Brasil.
Uma dura realidade, reflito.
—Sabe o que eu fico pensando? Que mundo meus filhos vão encontrar pela frente?
—Isso é algo para se preocupar mesmo, do jeito que anda as coisas... Ele sorri.
Finalmente o trânsito desafoga e os carros começar andar.
—Parece que está andando agora.
—Ainda bem! Digo contente.
—Bom, foi um prazer conhecê-la. Meu nome é José. Professor José.
—O meu é Érica, boa sorte! Desejo me despedindo.

O prazer na verdade foi meu, gosto de conversar com pessoas inteligentes. Elas na maioria das vezes me inspiram.

Eu fico pensando o quanto esses professores sofrem, o ensino está como está – por causa do governo. E a culpa cai sobre o profissional docente. De modo que, os professores se veem no fogo cruzado: de um lado, os alunos que não querem aprender e do outro, o governo que disse que o baixo índice das notas é devido ao mau ensino.
O sistema educacional cobra dos professores cada vez mais trabalho, como se a educação por si só, fosse resolver todos os problemas sociais. Os professores não podem ser taxados de vilões nesse cenário, onde todos têm culpa.

O grande fato é: não é só sistema educacional que está diferente. O mundo e suas crenças estão de cabeça pra baixo. O que não preocupa só a mim, como á todos nós.
Tudo isso é muito assustador, não sou perita no assunto e chego muito longe de ser. Apenas fiquei [e estou] indignada de qual futuro meus filhos, irão encontrar.



Eu seria muito otimista em dizer que isso pode mudar? Uma vez perguntei a uma garota de dezessete anos:

— Qual seu livro favorito?
—Livro? E ela se rachou de rir
—O que foi?
—Eu odeio ler, não tenho a menor paciência!

É esse o país em que vivemos – se vai melhorar, eu não sei. Mas, como boa Brasileira tenho esperança.

2 comentários:

camila disse...

Muito triste não é Erica!!!
:(
Sei nem o que dizer...

Adorei seu post, dura realidade..

beijos
http://dailyofbooks.blogspot.com.br/

Marco Antonio disse...

Boa note Érica,

Esse tema é importante e merece ser sempre discutido é triste mas é pura realidade...parabéns pelo post...abçs.


http://devoradordeletras.blogspot.com.br/



 

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